O GPS funciona sem sinal, ou no modo avião?
Funciona — e entender o porquê explica quase toda a confusão que as pessoas têm com navegação no celular. Seu aparelho descobre onde está escutando, não perguntando. O que a conexão de dados compra de verdade é velocidade e um mapa.
Resposta curta: sim. Seu celular consegue descobrir onde está numa montanha sem nenhuma barrinha de sinal, num país onde o seu chip não serve para nada e com o modo avião ligado — desde que o modo avião não tenha desligado junto os Serviços de Localização, o que no iOS ele não faz.
Vale desfazer a confusão, porque quase todo mundo já abriu um app de mapas numa área sem cobertura, viu um ponto azul em cima de um retângulo cinza e concluiu que o posicionamento tinha parado de funcionar. Não tinha parado. O que estava faltando era o mapa. São dois sistemas completamente diferentes que por acaso são desenhados na mesma tela.
Seu celular escuta; ele não pergunta
Um receptor de posicionamento por satélite é exatamente isso: um receptor. Cerca de trinta satélites GNSS transmitem sem parar um sinal que diz, na prática, "sou o satélite número onze, esta é a minha órbita, e o meu relógio marca tal instante". O sinal viaja num sentido só, do espaço até você. Seu celular nunca devolve nada, e nenhum satélite faz a menor ideia de que você existe.
A partir das diferenças minúsculas no tempo de chegada de quatro ou mais dessas transmissões, o receptor resolve quatro incógnitas: sua latitude, sua longitude, sua altitude e o desvio do seu próprio relógio barato em relação ao tempo atômico. O truque é esse, inteiro. Ele exige uma visão razoavelmente desimpedida do céu e mais nada. Sem chip, sem plano de dados, sem wi-fi, sem conta, sem assinatura.
É também por isso que o GNSS é gratuito em qualquer canto do planeta, e por que a sua posição não tem como "acabar". Os satélites transmitem esteja alguém escutando ou não.
Então, para que servem os dados móveis?
Para duas coisas, e nenhuma das duas é o cálculo da posição em si.
Uma primeira posição mais rápida
Para encontrar satélites depressa, o receptor precisa saber mais ou menos onde eles estão neste momento. Esses dados — o almanaque e as efemérides — são transmitidos pelos próprios satélites, mas devagar: captá-los do zero pelo ar pode levar de trinta segundos a vários minutos. O GNSS assistido simplesmente baixa os mesmos dados de órbita pela rede numa fração de segundo, e aí o receptor já sabe para onde olhar.
Sem essa ajuda você tem uma partida a frio. A posição chega do mesmo jeito; só demora mais. Na prática, é exatamente isso que as pessoas percebem numa área sem cobertura, e é por isso que vale a pena ficar parado um minuto no início da trilha antes de sair andando.
O mapa que fica por baixo
Os blocos do mapa — as ruas, as curvas de nível, as imagens de satélite — são figuras baixadas de um servidor. Eles não têm relação nenhuma com posicionamento. Sem dados você fica com as suas coordenadas e sem nenhum fundo para desenhá-las em cima, que é precisamente a experiência do retângulo cinza: uma figura faltando, não uma posição faltando.
O que ainda dá errado sem sinal
- A partida a frio demora mais, como foi dito acima. Dê um minuto a céu aberto antes de começar.
- Desfiladeiros fundos, mata fechada, túneis e o interior de um veículo bloqueiam ou refletem o sinal. Isso não tem nada a ver com cobertura de celular — acontece no meio da cidade também, e é por isso que um percurso por uma região de prédios altos às vezes passa por dentro deles.
- O posicionamento por wi-fi, que os celulares usam em ambiente fechado para situar você a partir dos nomes das redes por perto, depende de uma consulta a um banco de dados. Offline e dentro de um prédio, você fica só com os satélites, o que equivale a ficar quase sem nada.
- O mapa aparece em branco, a menos que o app tenha guardado os blocos com antecedência.
Gravar um percurso sem sinal nenhum
Para um gravador, a pergunta que importa de verdade não é se a posição chega — ela chega —, e sim onde o app coloca essa posição. Um app que acumula o seu trajeto na memória e envia tudo no final criou uma dependência de rede que o sistema de posicionamento não tem. Um app que lê a lista dos seus trajetos antigos de um servidor criou uma segunda dependência, e é essa que dói: você entra num túnel, abre o app, e os seus trajetos parecem ter sumido.
O Roam segue o caminho oposto, e por estrutura. Cada ponto é gravado num banco de dados dentro do celular no instante em que chega, na mesma transação que atualiza os totais do trajeto, então não existe janela nenhuma em que um quilômetro já percorrido esteja apenas na memória. A tela que lista os seus trajetos lê esse mesmo banco local e não tem de onde mais ler — o repositório tem uma trava de compilação que varre a funcionalidade inteira atrás de símbolos de rede e derruba o build se algum aparecer, justamente porque uma versão anterior deste app lia a lista de um servidor e produzia exatamente a cena da lista vazia dentro do túnel descrita acima.
A exceção honesta é a imagem de fundo do mapa, que é baixada de um servidor de blocos como em qualquer mapa. Sem dados, a linha do seu percurso continua sendo desenhada, medida e salva; as ruas atrás dela podem não aparecer. O que some é uma figura do mundo, não o seu trajeto.
Perguntas frequentes
O GPS funciona no modo avião?
Funciona. O modo avião desliga os transmissores — a parte celular e, por padrão, o wi-fi e o Bluetooth —, mas a recepção GNSS é passiva e continua ligada. No iOS, os Serviços de Localização são um interruptor separado e não são desativados pelo modo avião. Você vai ter uma primeira posição mais lenta, porque o GNSS assistido não consegue baixar os dados de órbita, e não vai ter blocos de mapa.
O GPS consome dados móveis?
O cálculo da posição não consome nada. O GNSS assistido baixa alguns kilobytes de dados de órbita para acelerar a primeira posição, e os blocos de mapa podem consumir bastante — mas isso é o mapa, não o posicionamento.
Por que meu celular diz "sem localização" quando estou sem sinal?
Em geral é uma partida a frio que ainda não terminou, ou você está em algum lugar sem visão do céu. Saia para a área aberta, fique parado e dê um minuto a ele. Se um app mostra uma tela vazia em vez de uma tela lenta, provavelmente ele está esperando um servidor, e não um satélite.
Dá para gravar uma caminhada no exterior sem pagar roaming?
Dá. Coloque o celular no modo avião e grave normalmente — o posicionamento não custa nada e não envolve rede alguma. Só o mapa, que busca blocos, é afetado, então baixe antes de viajar os mapas offline que você quiser usar, ou aceite uma linha de percurso sobre um fundo em branco.
Um gravador que não perde o trajeto
O Roam grava cada ponto do GPS no celular no instante em que ele chega, marca as falhas de sinal em vez de traçar uma linha reta por cima delas e lê a subida do barômetro, não da altitude do GPS. Sem conta, sem login, sem sincronização. Gravar um trajeto, vê-lo e reproduzi-lo são coisas gratuitas.